Artesãs de Poço Redondo aperfeiçoam técnicas em busca de geração de renda

c292ab830e5d9204ea9f795ab027148bO Governo de Sergipe, em parceria com o Sebrae e o Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI), proporcionou capacitação para bordadeiras a fim de reposicionar o artesanato sergipano no mercado, criando produtos de alto valor agregado, por meio da associação de design contemporâneo a técnicas artesanais

“Saúdo a mulher rendeira, que traz a magia na mão. Dentro de nossa história, já é lenda e tradição. Eu louvo a mulher rendeira, artesã que me fascina; o bailado dos seus bilros; conheci desde menina”, os versos do poema da cearense Dalinha Catunda retratam bem o trabalho das artesãs do município de Poço Redondo, no Alto Sertão sergipano. Foi na região onde morreu Lampião, que os bordados se tornaram o principal ofício das mulheres locais. Hoje, elas atuam com economia criativa e colhem os resultados do aperfeiçoamento das técnicas para produção das peças artesanais, possibilitado através de capacitações promovidas por meio de uma parceria entre o Governo de Sergipe, o Sebrae e o Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI), no âmbito de um projeto de desenvolvimento social e econômico sustentável.

A iniciativa busca contribuir para a melhoria das condições de vida da população, em especial, das comunidades em situação de extrema pobreza, em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Contempladas no projeto, dezenas de rendeiras da Associação dos Artesãos de Poço Redondo (AAMPR) e da Cooperativa de Bordadeiras de Sítios Novos participaram de 23 oficinas, que proporcionaram o incremento de novas técnicas à sua tradição milenar, tendo como objetivo a inovação. O projeto nasceu, portanto, da ideia de reposicionar o artesanato sergipano no mercado, criando produtos de alto valor agregado, por meio da associação de design contemporâneo a técnicas artesanais.

O resultado são produtos ‘feitos a mão’ por artesãos locais, mas com apelo global. Peças surpreendentes, com magnetismo suficiente para encantar pessoas de qualquer lugar do mundo. É o que explica Saulo Barretto, relações institucionais e novos negócios do IPTI. “Infelizmente, as pessoas ainda associam o artesanato a produtos de baixa qualidade, sem muito acabamento ou apelo de design. Ainda há o estigma da desconfiança sobre os prazos de entrega. Então o projeto, coordenado por Renata Piazzalunga, busca profissionalizar o artesanato, não só reforçando sua identidade, mas qualificando a produção, para que os produtos sejam adquiridos com maior valor agregado, elevando a geração de renda para o artesão e possibilitando que ele faça do artesanato sua atividade principal”, explica Saulo.

Maria Domingas dos Santos é uma dessas mulheres, que teve sua vida transformada pelo artesanato. E m busca de uma alternativa de renda, ela passou a produzir peças de crochê em 1994, vendendo no próprio município. Nessa época, havia muitas rendeiras em Poço Redondo, porém, um estudo realizado em 2002 pela professora de Antropologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Beatriz Gois Dantas, apontava que eram senhoras entre 60 e 80 anos que, por uma série de fatores, não haviam transmitido seus saberes às novas gerações. Isso indicava que a extinção da renda de bilro não tardaria, no município.

Admiradora da antiga tradição e movida pela vontade de ganhar mais traquejo com as linhas, Domingas aprendeu a arte da renda de bilro, tida como uma das principais atividades das mulheres na primeira metade do século XIX. E havendo poucas praticantes, uma oportunidade surgiu. “Eu olhava as rendeiras em suas almofadas, traçando os fios com muita atenção e em minha mente vinha a imagem das minhas avós, que também eram rendeiras. No mesmo período, foram oferecidos cursos com as rendeiras mais experientes. Aproveitei as aulas e, em três meses, já estava produzindo peças. Faço renda de bilro há onze anos e também passei a ensinar. Para mim não tem tempo ruim e faço isso de domingo a domingo”, relata a artesã Domingas.

Para dar vazão à produção de Domingas e de outras artesãs do município, o projeto da Secretaria de Estado da Mulher, Inclusão e Assistência Social, do Trabalho e dos Direitos Humanos (Seidh) busca o fortalecimento da comercialização do artesanato, com foco na geração de renda. Com investimento próximo a R$ 1 milhão, o projeto tem mais de 50% dos seus recursos investidos pelo Governo de Sergipe, através do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza [R$ 508.160,00], e outra parte investida pelo Sebrae. Trimestralmente, o Departamento de Inclusão Produtiva (DIP) da Seidh realiza o monitoramento do trabalho executado pelas profissionais beneficiadas.

De acordo com assessor do DIP, Melquíades Freitas, a Seidh fez todo o acompanhamento técnico nas oficinas realizadas e, hoje, as artesãs aplicam suas técnicas para a criação de produtos mais modernos. “Essas peças estão circulando no Brasil e sendo divulgadas internacionalmente. Podemos constatar que essas beneficiárias que moram em localidades carentes, afetadas pela seca e miserabilidade. Nas aulas ministradas por oficineiros conhecidos mundialmente, essas artesãs puderam adquirir experiência e mostrar a técnica delas, que vai sendo aplicada em produtos diferenciados. Observamos que elas conseguiram obter renda, além de proporcionar o fortalecimento do artesanato. É gratificante ver o êxito desse projeto”, disse.

Fios de tradição

Tradição secular, as atividades da renda e do bordado marcam a história do Brasil e de Sergipe, passando por muitas gerações. Jeane Vieira é artesã de Sítios Novos e trabalha com Ponto Cruz e Redendê. Ela conta que começou a aprender aos 15 anos, e bordava apenas por hobby. “Eu não sabia bordar com avesso perfeito, nem tinha noção da metragem para realizar cortes e fazer bainhas. Essa capacitação mudou muita coisa porque aprendi a calcular os custos da matéria prima para ter a noção do preço dos artigos, a combinar cores, a afinar o acabamento, a ter conhecimento do valor da nossa mão de obra. É uma forma de acrescentar em nossa renda, mas se eu pudesse, só viveria disso e amanheceria o dia com o bastidor na mão”.

Para Magaiver Correia, técnico de assistência de planejamento da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec), a parceria com o IPTI é muito positiva, pois é uma solução criativa que gera renda para uma população.  “A ideia partiu da proposta de agregar aprimoramento, inovação e reposicionamento do artesanato sergipano no comércio, a partir da criação de produtos com alto valor agregado para o comércio internacional e grandes galerias no exterior, utilizando a consultoria de profissionais renomados no designer mundial. O resultado esperado é que essas artesãs possam consolidar o seu talento, elevando o nível de mercado que pague o que o artesanato merece”, explicou.

Além fronteiras

O resultado desse trabalho tem conquistado destaque para além das fronteiras. No último mês de junho, o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (Crab), no Rio de Janeiro, realizou a Exposição ‘Retratos Iluminados’, trazendo a coleção composta por 40 luminárias, com design assinado pelos mundialmente conhecidos irmãos Humberto e Fernando Campana, e produção e o bordado das artesãs de Sítios Novos, em Poço Redondo; e de Entre Montes, em Piranhas. O trabalho tem sido destaque também na imprensa internacional, e a próxima parada é o Shopping Iguatemi, em São Paulo, no próximo dia 18 de outubro, quando duas artesãs de Poço Redondo também ministrarão oficinas no local.

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