Jozailto Lima, “Ainda os lobos” e uma poética do afeto e de outras inquietações

Não é verdade que a poesia no Brasil esteja em baixa. Muito menos morta. Ainda que não seja parte da vida das pessoas como o fora até anos 70 do século passado, quando todo mundo suspirava ao redor dela e boa parte dos brasileiros até “acometia”, a poesia resiste.

Resiste e manifesta-se numa densa produção e em editoras que se especializam em publicá-la. O poeta Jozailto Lima, o livro dele “Ainda os lobos” e a editora paulista Patuá se encaixam bem neste contexto. Aos 55 anos, ele lança em Aracaju nesta terça, dia 21, à partir das 18h, no Museu da Gente Sergipana, seu quinto livro. Aos cinco, a Editora Patuá já beira os quase 400 títulos publicados.

“Creio que a poesia ocupa o lugar de sempre: o do paladar dos que gostam da palavra de um modo diferente, e o da discrição. E assim ela sobreviverá”, diz Jozailto. “O Brasil vive uma fase extraordinária na produção de poesia de qualidade. Temos muitos e bons poetas. É óbvio que precisamos brigar para encontrar e formar leitores. Mas a pouca receptividade não diminui a qualidade dessa produção”, diz o editor dele, Eduardo Lacerda.

Se depender da poesia de Jozailto Lima, sim, essa modalidade vai subsistir, e para sempre. E fazendo bem ao gênero e a quem por ele se afeiçoa. Autor há 30 anos, quando publicou “A Flor de Bronze”, seu o primeiro livro aos 25, esse poeta é dono de uma poética do afeto e de outras inquietações.

Em 1985, ao deparar com alguns poemas dele por carta, Carlos Drummond de Andrade foi direto ao ponto: “Você acerta no importante. Gera e transmite emoção no seu grave sentimento de vida”. É disso que fala a poesia de Jozailto do primeiro ao quinto livro: vida.

Fortemente marcada por um tom perqueridor do sentido da existência, a poesia dele posta-se na fonteira de quem toma parte direta na vida. “A poesia de Jozailto busca expressar uma essência, com fortes traços memorialísticos. É como se a paisagem da infância lhe desse a régua e o compasso para a compreensão do mundo”, escreve em prefácio de “Ainda os lobos” o poeta Paulo Lima.

“E a partir dessa visão de mundo nascem seus “ribeirões verbais”. Não é à toa que ele foi buscar na mineira Adélia Prado uma das epígrafes do livro: “O que precisa nascer/ tem sua raiz em chão de casa velha”. É a “casa velha” que ecoa nas retinas desse poeta. É como se os elementos de sua poesia estivessem sempre retornando a um instante primordial, a uma pureza quase mineral”, completa.

Jozailto tem uma poética nada blasé. Evoca passados e tritura presentes. Sem um olhar passadista. Dois poemas diferentes dizem de pontos de vista iguais desse autor. Em “Gravura familiar”, acalanta a infância e a ternura dos seus: “o melhor lugar do domingo/ era o cangote do pai.// dali, eu via a aurora/ tecer a luz/ e o horizonte inventar larguras”.

Em “Ao rés da fera”, cavouca os vazios do país aturdido em que vive e onde escreve:“do país profundo,/ de patas fortes/ e abas largas,/ cheirando a âmago/ e guabiroba, nada/ resta. e nada restará.// avariado está/ o caminho das águas,/ o labor das abelhas;// e da razão dos lobos,/ fez-se lenha;/ da lenha,/ brasas mortas/ sobre as quais pisam pés morenos,/ brasileiros, de inativo afeto./ ao rés do chão,/ sem giz nem carvão// alheio/ a/ qualquer uivo// eis a fera que um dia / se quis profundo país”.

Em 1996, em prefácio ao segundo livro de Jozailto, “Plenespanto”, o contista Antônio Carlos Viana já apontava um nexo da poesia desse autor com uma visão universal. “A poesia Jozailto Lima é uma poesia de ideias, enunciadas com forte tom emocional”. “É assim que ele concebe a poesia: dizer o mundo apoiado na emoção. O leitor perceberá que desse universo tão pessoal brotam reflexões que são comuns a qualquer homem que se indague sobre o seu estar no mundo”, disse Viana. Por essas e outras, é possível garantir, sim, que a “fera que um dia” se quis poesia certamente haverá de se manter viva.