Operação Valquíria

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE
Nunca jamais maquine contra o príncipe. A não ser que você tenha o aval de um deus. Entre os escandinavos, por exemplo, as valquírias (deusas-menores) desempenhavam a importante missão de estabelecer o destino dos príncipes humanos. Tal papel achava especial destaque durante as guerras. Nelas, as valquírias praticamente ditavam o desfecho. Interessante é que, pelos costumes nórdicos, príncipes deviam lutar e deuses podiam morrer. Fala-se que os deuses vikings tinham uma dieta composta de maçãs sagradas, porquanto precisassem viver até a batalha final, denominada Ragnarok. Daí, a exigência de permanente cautela, pois decidir errado seria um convite à morte. Por isso, as valquírias não agiam sem o consentimento de Odin, o deus-pai. Elas não apontavam a queda de um príncipe, salvo se isso fosse desejado pela divindade. Ainda assim, o espírito do nobre era guiado a um recinto celeste (Walhala).
Há um detalhe. Tão-somente os espíritos dos mais intimoratos guerreiros, mortos em batalha, tinham o direito de entrar no Walhala, a fim de serem recebidos pomposamente por Odin. Essa tradição de honrar os intrépidos, ainda que derrotados, foi bem assimilada pela cultura germânica. Parece, porém, que a veneração post mortem requisitava o endosso divino. Um exemplo histórico: o coronel alemão Claus Stauffenberg foi o mentor da “Operação Valquíria”, consistente num plano para matar Hitler. Para tanto, Stauffenberg contava com a anuência de Erwin Rommel, “a raposa do deserto”, um deus guerreiro entre os alemães. A eliminação do Führer estava agendada para 20 de julho de 1944. Tudo ocorreria numa convenção, a realizar-se na toca do lobo, um dos quartéis-generais do ditador. Stauffenberg, pessoalmente, foi à toca, onde, sub-repticiamente, deixou uma mala, dentro da qual havia explosivos.
Estaria selado o destino de Hitler. Metaforicamente, as valquírias o teriam marcado para morrer, consagrando o final da 2ª Guerra. Pois bem. Também metaforicamente restava saber se esse era o projeto de Odin. Não foi. A bomba que Stauffenberg quis deixar no colo de Hitler feriu gravemente cerca de dez pessoas e matou algo em torno de cinco. No Führer, todavia, ela apenas causou imperceptíveis escoriações. Identificados os autores do atentado, todos foram fuzilados, com exceção de Rommel (um deus, como dito acima), a quem foi outorgado o direito de praticar suicídio. Contudo, e malgrado a medonha conspiração, fez-se valer a práxis nórdica. Os cortejos fúnebres, tanto de Stauffenberg quanto de Rommel, ostentaram distinções que só são estendidas a chefes de estado. Embora facínora, Hitler, na linguagem maquiavélica, sabia proceder como um príncipe, possuindo os atributos de um: virtù e fortuna.
Virtù, em Maquiavel, não é bondade e justiça. Virtù é a aptidão para melhor visualizar o tabuleiro político, o que permite ao príncipe jogar energicamente para conseguir e sustentar o poder. Fortuna (ou acaso) traduz-se pela oportunidade de pôr em prática a virtù. No caso da “operação valquíria”, uma inegável conspiração contra o príncipe, Hitler pôde contar com a fortuna. E não deixou de aplicar a virtù. Com vigor, eliminou todos os que quiseram pôr uma bomba no seu colo. E não foi só nesse acontecimento que Hitler conseguiu sobreviver e agir como um príncipe, na exata conceituação maquiavélica. Em 1938, um jovem estudante de teologia, Maurice Bavaud, viajou da Suíça para a Alemanha com um plano para assassinar o ditador nazista. A intenção era atirar à queima-roupa no Führer durante as comemorações de aniversário da revolução, que se daria em Munique no mês de novembro daquele ano.
O plano do estudante não deu certo. A multidão que acompanhava Hitler formou uma verdadeira barreira humana, de tal sorte que impedia qualquer tipo de aproximação por quem quer que seja. O jovem Bavaud, ao ser preso por não portar documentos, teve a sua arma descoberta pela Gestapo. Após sofrer torturas de toda espécie, acabou confessando a sua ousadia. Foi condenado à morte e levado à guilhotina em 1941. O mundo está cheio de psicopatas que tentam por todos os meios assassinar pessoas que se tornam famosas ou influentes. É o desejo de entrar na história, nem que seja como um assassino de uma figura marcante. Em 1939, na Varsóvia, Franciszek Niepokólczycki, um major do exército polonês, urdiu um plano para assassinar Hitler durante sua estada na capital polonesa. Uma bomba foi colocada discretamente num local, mas o seu dispositivo não disparou.
Embora o petardo tivesse sido encontrado, a polícia nazista não conseguiu desvendar a autoria da tentativa de morte. Um ano antes, em 1938, uma conspiração de militares, liderada pelo coronel Hans Oster, ligado à inteligência militar alemã, tentou prender, julgar e executar Hitler e a alta cúpula do partido nazista. A ação dependia do fracasso de Hitler numa ação militar a ser desencadeada na Tchecoslováquia. Só que a ação militar foi resolvida sem qualquer derramamento de sangue, o que frustrou os conspiradores, que passaram a se desentender, terminando em delações recíprocas. Oster terminou sendo enforcado pelos nazistas, sob a acusação de traição. O evento foi conhecido como a “Conspiração Oster”. Também em 1939, um carpinteiro comunista, Georg Elser, colocou uma bomba-relógio num bar que confinava com um anfiteatro onde Adolf Hitler iria se apresentar.
A sorte, mais uma vez, protegia o Führer. Treze minutos antes da explosão da bomba, ele já tinha se retirado do local, contudo, oito pessoas morreram e mais de sessenta ficaram feridas. Elser foi preso pela SS. Foi torturado e encaminhado ao campo de concentração de Dachau, onde foi fuzilado. No capítulo XV de “O Príncipe”, Maquiavel ensina que “para se manter príncipe é necessário aprender a ser mau, valendo-se disso quando necessário”. Isto não é uma defesa do nacional-socialismo. É uma defesa do príncipe. Churchill dizia que “quando se tem de matar um homem, não custa nada ser educado”. Não vejo educação alguma em planejar jogar uma bomba no colo do príncipe, até porque o colo do príncipe é um colo sacrossanto, como diria Maquiavel, naquela sua visão de realidade que rodeia a política ou a ação dos homens de estado.

*Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos
Fonte: Blog Primeira Mão

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