Miguel Servet e Lula da Silva – Os Hereges de ontem e os de hoje

 

Há processos que, aos olhos das gerações seguintes, se tornam humilhantes, dolorosos – a tal ponto, com o decorrer dos anos e dos séculos, se modificam as mentalidades, as crenças, os poderes. (…). À cabeça daqueles que – casuístas fanáticos e magistrados honestos-enviarão Servet para a morte, vamos encontrar um gênio, o mais encarniçado de todos os acusadores. E esse homem de Deus orgulhar-se-á mais tarde de ter purgado a cristandade de um monstro”

(Claude Bertin, in O processo de Michel Servet, Otto Pierre, Editores, Ltda., São/SP)

Por: MIGUEL DOS SANTOS CERQUEIRA

 

A propósito da epígrafe que abre o presente artigo, não se está a falar do processo de desmoralização, excomunhão, morte civil e política desencadeado pelos puristas, higienistas, purificadores ou salvadores da pátria contra o mais perigoso dos hereges da pátria brasileira dos tempos hodiernos, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Embora guarde similitude com a situação atual envolvendo o ex-presidente Lula, com a sua condenação sem provas, como imposição do desejo e afirmação da vontade e das crenças, da ideologia, dos preconceitos e da visão de mundo da pessoa de um juiz; a epígrafe, uma frase de Claude Bertin, diz respeito a caçada, desconstrução, desmoralização e morte do cidadão aragonês Miguel Servet ou Michel Servetus. Um anti-trinitarista, filósofo e cientista espanhol, que foi o maior dos hereges do século XVI.

Por ter se insurgido contra a mentira e mistificação, uma vez que, segundo a compreensão do pensador, o dogma trinitário se prestava tão somente a fins políticos, dizia respeito às injunções dos poderosos para obter consentimento e garantir a dominação.

Por ter ousado a demonstrar a inautenticidade e ausência de fundamentação bíblica do maior dos dogmas da cristandade, o dogma da Santíssima Trindade, uma invenção de Atanásio de Alexandria, Basílio da Cesáreia e de Tertuliano,     que foi posteriormente acatada e imposta por Constantino, o Grande, no Concílio de Nicéia no ano 325 da Era Cristã, para fins unificação religiosa em torno de um  Credo único e assim salvaguardar da unidade do Império Romano das divisões entre pagãos, cristãos ou galileus, como eram conhecidos os atuais prosélitos do cristianismo; o pensador e cientista aragonês Miguel Servet foi considerado o maior dos hereges, um verdadeiro monstro, e condenado e levado à fogueira por ninguém menos do que João Calvino, tido por gênio, magistrado honesto, defensor da ordem, mas nem por isso o mais perigoso dos fanáticos e encarniçados dos acusadores.

A tese da Santíssima Trindade, embora ausente na Bíblia Hebraica e não bem definida nas chamadas Escrituras Cristãs, a não ser por algumas insinuações nos chamados escritos joaninos, é o dogma e a crença que, independentemente de ser cristão católico, adepto da reforma, Calvinista ou Luterano, a todos unifica. Naqueles tempos terríveis em que viveu Miguel Servet, crer e afirmar o absurdo do dogma trinitário era causa de morte física.

Semelhantemente àqueles dias, nos dias atuais, o crer e afirmar ser o utracapitalismo, o neoliberalismo, a negação do humanismo, a maior das perversidades, a origem de toda sorte de pestilência dos tempos modernos, são os responsáveis por toda sorte de infortúnios, desde as migrações forçadas dos fugitivos das Nações e de Estados destruídos à permanência do desemprego endêmico e latente que viceja na Europa e nas Américas, sem se falar na desmesurada acumulação de riquezas por um lado e estagnação econômica por outro, o ressurgimento e o recrudescimento do trabalho escravo, seja em Bangladesh, seja dos trabalhadores bolivianos nas fabricas de roupa do Estado de São Paulo,  é a maior das heresias.

Aqueles que ousam divergir da crença na excelência e na justeza das desigualdades, aqueles que ousam afirmar acerca da possibilidade de vicejaram novas utopias, estão suscetíveis a toda espécie de perseguições, desde as calúnias e difamações até a morte política e civil, uma vez não sendo possível a morte física.

Miguel Servet foi um dos hereges de ontem, alguém que não soube se colocar no seu lugar e que também, achando-se “grande coisa”, embora adviesse das margens do pensamento dominante, pensou que apenas com a altivez da sua figura e a força da sua verdade poderia ser aceito, respeitado e poupado por aqueles que também eram perseguidos, eis que divergentes quanto a crença católica na centralidade da autoridade papal e da natureza satânica da usura, qual não foi o seu engano.

Nos tempos de tempos de Miguel Servet, tendo ele se refugiado em Genebra, a sede da República Calvinista, João Calvino,  onde se negava a autoridade do Papa, nem mesmo a inimizade visceral entre o papado e os reformadores calvinistas, que levava a Igreja a os considerar anátemas, condenando-os nas perdas dos seus bens e à fogueira,  foi capaz de lhe poupar a vida, uma vez que as crenças e atos do pensador aragonês, Miguel Servet, a sua negação do dogma do dogma mais caro aos cristãos, o dogma que a centralidade da ideologia da justaposição entre fé o Estado,  eram como se fosse uma clava no coração do establishment da cristandade.

Hodiernamente também temos hereges. No nosso Brasil o maior deles trata-se do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Tão temido quanto Miguel Servet por sua periculosidade. Evidentemente que a figura do ex-metalúrgico “Lula da Silva” não tem a mesma estatura do cientista e pensador Miguel Servet. Porém se trata de um indivíduo que como aqueloutro ousou divergir.

Por certo, o agora condenado ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva não compartilha das crenças em voga e que são altissonantes da excelência das desigualdades naturais entre os homens. Mesmo não se afirmando socialista, não aceita um modelo de sociedade que exclui e lança a margem a maioria da sua gente, enquanto a minoria das minorias goza e se refastela com os frutos da exclusão e da ganância. Não pretende que o Brasil, quanto as suas relações de trabalho, sob a desfaçatez da necessidade de segurança jurídica ou da garantia da empregabilidade, se torne um Bangladesh de tamanho continental.

Certamente, no caso do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, embora tenha flertado com o modo de fazer política tradicional, fazendo alianças com alhos e bugalhos, com conhecidíssimos larápios e picaretas, sempre foi e é um estranho no ninho da grade bandidagem d e alto coturno.

 

No caso do nosso herege tupiniquim, embora tenha contrariado interesses, uma vez que dotou de autoestima parte daqueles a quem sempre se negou a condição de humanos, contrariamente a Miguel Servet o nosso herege, o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, jamais ousou desafiar seriamente o establishment.

Ao contrário do herege Miguel Servet, cujo maior erro foi o de desafiar as crenças nas quais se assentavam o establishment da cristandade, e acreditar que por se aproximar de um segmento divergente da ortodoxia cristã, que só por isso gozaria da acolhida e complacência daqueles supostos subversivos, no caso os calvinistas. No caso do herege Luís Inácio Lula da Silva o seu maior erro foi o de, embora aquinhoar grande levas dos que estavam às margens com acréscimos de ganhos e dotar aqueles que até então se encontravam caídos de autoestima e esperança, e por acreditar na gratidão dos aquinhoados, supor que estaria infenso aos humores da fortuna, não se dispondo a querer contrariar os dogmas e crenças do establishment político-partidário e do sistema econômico. O maior dos erros do herege Luís Inácio Lula da Silva foi o de fazer concessões para aqueles adeptos da conservação e aos oportunistas e carreiristas incrustrados nos Aparelhos de Estado, mimando-os com Leis vantajosas e com benefícios e vantagens salariais, se afastando de todos aqueles tidos por esquerdistas, logo perigosíssimos subversivos.

No enredo de Miguel Servet, ele convicto da veracidade das suas crenças e na possibilidade da solidariedade dos igualmente ou supostos anátemas, esqueceu-se de algo maior, que se trata do medo que quase todos têm das mudanças. Do medo que agrilhoam àqueles adeptos de dogmas, os que formam e conformam o establishment.

De fato, aqueles que formam e conformam o establishment, embora circunstancialmente ou convenientemente divididos e em lados opostos, quando se sentem ameaçados no usufruto das benesses com as quais sempre foram aquinhoados, se juntam como se fossem um só rebanho.

Sem sombras de dúvida, a demonização do hoje herege Luís Inácio Lula da Silva decorreu da falta de confiabilidade daqueles que conforma o establishment com as suas origens e o seu comportamento, por assim dizer, bipolar, eis que fez concessões para aqueles adeptos da conservação e aos oportunistas e carreiristas incrustrados nos Aparelhos de Estado, aquinhoou grande levas dos que estavam às margens com acréscimos de ganhos e dotou aqueles que até então se encontravam caídos de autoestima e esperança,  mas se afastou de todos aqueles tidos por esquerdistas, logo perigosíssimos subversivos, se tornando assim vulnerável.

Naqueles tempos nefandos da chamada Idade Média, o ingênuo Miguel Servet foi traído por sua “fé” na neutralidade. E uma vez buscando refúgio no âmbito de supostos igualmente subversivos, se deixou se aprisionar pela armadilha da aparência, eis que aqueles tidos por subversivos confessavam a mesma crença do establishment e o queriam ver morto.

No caso do herege Luís Inácio Lula da Silva, ele que conquistou o mandato e foi alçado ao poder pelo voto da maioria dos que se encontravam às margens, talvez, é o que queremos crer, perseguido pelas assombrações das quedas de Jango Goulart e de Salvador Allende, para citar apenas dois exemplos latino-americanos, preferiu seguir a trilha do grande pacto, fazer concessões e postergar mudanças tidas por inadiáveis,  a exemplo das reformas do Poder Judiciário, da reformas políticas e partidárias . O nosso herege verde-amarelo acreditou piamente que não sendo um egresso do establishment, não promovendo mudanças democráticas na estrutura do Estado, aderindo ao jogo do establishment, inclusive no tocante às composições partidárias e ao clientelismo político, seria plenamente aceito e estava a salvo.

E eis que aqueles do establishment, os que sabem jogar o jogo, se reunificam em torno das suas crenças, notadamente aquelas da excelência da exclusão, da ficção da Constituição Federal e do “Mise en scène” que é a Democracia, verdadeiro faz de contas para enganar os tolos,  com sempre o fizeram e foram  bem sucedidos, alicerçados em ideias e interesses alienígenas, contando com o apoio econômico e financeiro do Poder Econômico e com a complacência e bestificação das chamadas Classes Médias,  articulam um Golpe de Estado, golpe com gradações e intermitências, que começa com a deposição da Presidente eleita, Dilma Rousseff,  prossegue com a substituição a ferro e fogo da Constituição de 1988, que guarda parentesco com aquelas de modelo dos Estados de Bem-Estar-Social, por uma Constituição de modelo conservador e ultraliberal, e que cuja culminação deve se dar com o impedimento e prisão do  ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva,  a fim de que não se corra o risco de uma nova eleição de pessoa que não seja do establishment, e, principalmente,  do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva,   assegurando assim a permanecia do status quo e evitando-se quaisquer riscos ou possibilidades de mudanças.

Tudo isso pode ser visto na confusão de interesses quer atualmente reúne desde Paulo Salim Maluf ao Senador Aécio Neves, desde o Ministro do STF Marco Aurélio Melo ao Ministro Gilmar Mendes. Nos males disfarçados afagos que são trocados, quando em eventos públicos, pelos membros da chamada “República de Curitiba” o Senador Aécio Neves e o atual primeiro mandatário da nação. E não se fale do grandiloquente das panelas, antes vociferantes, ante os escândalos que se avolumam em torno do establishment da política nacional.

O processo e a condenação do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, a exemplo daquele de Miguel Servet, se as coisas prosseguirem no rumo que estão,  uma inocentados todos os outros, Michel Temer, Aécio Neves,Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, José Serra,  Rodrigo Maia, toda essa cambada que constitui o establishment político partidário, todos eles ou quase todos eles envolvidos com corrupção ativa e passiva, peculato,  tráfico de influência, caixa dois e três, toda espécie e sorte de crimes eleitorais e de lesa-pátria, que somente por serem “brancos, por defenderem exclusivamente os interesses do detentores o Poder Econômico,  por constituírem o establishment e fomentarem a crença infame na excelência das desigualdades entre os homens, a crença hedionda na excelência do neoliberalismo, que exclui e lança a margem a maioria das gentes e povos de todas as nações, enquanto a minoria das minorias goza e se refastela com os frutos da exclusão e da ganância,  demostrará cabalmente que gozam de salvo conduto para continuarem atuando na esfera pública, andejando livremente a pregarem ética, como se fossem políticos probos e honestos, apenas é tão somente por pertencerem as mesmas tribos que pertencem os juízes, promotores, procuradores e a maioria dos ocupantes dos aparelhos de Estado.

 

De fato, de ante do escárnio e da infâmia, da demonstração da seletividade e da justiça de classe que se pratica com a salvação de uns e perdição e outros, talvez daqui há alguns anos, alguém venha dizer, parafraseando a dito na epigrafe deste artigo: Há processos que, aos olhos das gerações seguintes, se tornam humilhantes, dolorosos, posto que com o decorrer dos anos e dos séculos, se modificam as mentalidades, as crenças, os poderes.  E se darão conta que à cabeça daqueles casuístas fanáticos e magistrados honestos orgulhavam-se ter purgado a nação de um monstro, de um herege, do mais perigosos dos corruptos. Mas, entretanto, a corrupção, sem a emergência de novos hereges, permaneceu hígida e incólume, como sendo o farol e guia do establishment e da nação.

 

MIGUEL DOS SANTOS CERQUEIRA, Defensor Público, estudioso de filosofia, história e política.  Militante de Direitos Humanos e titular da Primeira Defensoria Pública Especial Cível do Estado de Sergipe. E-MAIL:migueladvocate@folha.com.br

 

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