“Perdi tudo que juntei, mas tenho força de trabalho e paz no coração”, diz Antônio Bomfim

O ex-empresário Antônio Bomfim, 70 anos, que durante 36 anos dirigiu o mais importante jornal semanário de Sergipe, o Cinform, deve levar para o túmulo os nomes das figuras importantes do Estado que, segundo ele, o deixou, junto com a empresa, na bancarrota. “Alguns deles estão vivos e podem acabar de me enterrar”, disse Bomfim, ao justificar porque não citaria nomes daqueles que o arruinaram financeiramente. De próspero empresário, que chegou a ter 186 funcionários, de receber do então deputado estadual Belivaldo Chagas (hoje, governador), em 2006, a Comenda da Ordem do Mérito Parlamentar, Bomfim, hoje, vive com uma aposentadoria do INSS, no valor de R$ 2,5 mil. “Perdi tudo que juntei”, reconhece. Mas, inquieto, dirigiu Uber durante quatro meses para complementar a renda. Nesse período disse que conheceu Aracaju e aprendeu a dirigir, pois antes de ser motorista profissional “achava que sabia dirigir”. Como o trabalho de motorista não dava lucro, deixou. Com a atual esposa, Alexsandra Santos, “que me conheceu na riqueza e vive comigo na pobreza”, trabalha na lavanderia, a  Lavo e Levo, que ela abriu como microempresária individual (MEI), no Salgado Filho. Hoje, Bomfim  diz que dorme tranquilo, porque ninguém lhe cobra mais nada, desde que vendeu o Cinform, em 2018.  Ele conta que tem gente, hoje, que ao vê-lo na rua muda de caminho, desvia o olhar, faz que não o vê para não cumprimentá-lo. Bomfim diz que ri disso tudo, mas, vez por outra, se sente magoado e triste. Esses problemas o ensinaram que na vida o mais importante não é o lado material, e sim o espiritual, “coisa que eu não ligava antes”. Bomfim, que morava na Mansão Laurent, na praia 13 de Julho, hoje reside no Salgado Filho, num imóvel alugado, onde funciona também a lavanderia da esposa. Na quinta-feira,  ele recebeu o Só Sergipe para a seguinte entrevista.

Antônio Bomfim, em 2006, sendo homenageado, na Alese. Com ele, o então prefeito de Aracaju, Marcelo Déda (falecido) Foto: Márcio Dantas

SÓ SERGIPE –  O senhor foi um grande empresário da comunicação, dono  do semanário Cinform, e hoje recomeça com uma pequena lavanderia que não está nem em seu nome.  O que aconteceu ao longo desta trajetória? O que deu errado?

ANTÔNIO BOMFIM – O que deu errado no Cinform foi que eu optei por uma linha de independência, imparcialidade. Formei dois milhões de amigos e admiradores, mas meia dúzia de pessoas tiveram seus interesses contrariados, por culpa das coisas mal feitas deles, todos da área política, que me perseguiram, a ponto de me deixarem sem nada.

SS – Quem foi que lhe perseguiu, a ponto de provocar a queda de uma empresa como o Cinform e a sua pessoal?

AB –Eu prefiro não citar nomes, porque alguns ainda estão vivos e eles podem terminar de me enterrar. Deixa sobreviver com essa empresa, que não é nem minha. Quando descobrirem, sentirem que ainda respiro, vão querer jogar uma pá de cal.

SS – O senhor hoje está aposentado?

AB – Depois de 57 anos trabalhando, me aposentado e procurei outras atividades para encher meu tempo. Tentei a linha Hinode com minha atual mulher, mas não gostei, pois quem tem mais tempo leva vantagem nesse negócio. Passei quatro meses sendo motorista de Uber.  Gostei porque conheci Aracaju que não conhecia. Aprendi a dirigir, porque eu pensava que sabia. Mas eu estava pagando para me ocupar. Então, desisti. Mas antes, um passageiro me levou para fazer Polishop. Essa foi a maior decepção: para você ganhar algo, precisa tirar de alguém, isso nunca fez e não faz o meu perfil, levar vantagem em cima das pessoas.  Depois que eu paguei as mercadorias iniciais, deixei a Polishop e comecei a pensar em outra atividade. E veio a ideia de fazer franquia de lavanderia. Mas como somos pessoas humildes, que sabemos lavar e passar roupa, minha mulher abriu a empresa, Lavo e Levo, como micro empreendedora individual (MEI) e contratou uma funcionária. Com certeza, vamos crescer e iremos ampliar a equipe e a empresa.

Bomfim vive com uma aposentadoria de R$ 2,5 mil mensais

SS – Veja, o senhor de um rico empresário a motorista de Uber conhece, numa única vida, os extremos.

AB – Fui um grande empresário.  Tive tudo que pensei em ter na minha vida. Não sonhei muito alto. Eu tinha uma chácara no Robalo, que era um negócio de cinema, espetacular, resultado de 50 anos de trabalho. Tive uma lancha, jet sky, carros bons, tinha um apartamento na avenida Beira Mar, na Mansão Saint Laurent, e terminei perdendo tudo. Hoje moro de aluguel, o carro que uso é da minha mulher, e qualquer coisa que venha para o meu nome eu perco, porque tem processo atrás de alguma moeda que eu tenha.

SS – Como está o senhor, diante dessa situação?

AB – Deus me abençoou, me protegeu. Tenho uma aposentadoria que é uma merreca, mas tenho, e que dá para sobreviver. Deus me deu paz no coração e saúde.

SS – Que lições o senhor tem tirado destes episódios da vida?

AB – Acho que meu ganho foi espiritual. Eu cresci espiritualmente, porque eu não ligava muito para essa parte, e sim para o lado material. Não era questão de juntar riqueza, mas tê-la. Deixar para os meus filhos, meus netos. Mas infelizmente, não deu certo. Nós todos estamos superando, porque vendemos as empresas ao grupo Sacopel. Concordei com a venda e não recebemos um centavo, mas a compradora ficou com o compromisso de pagar todas as ações civis, trabalhistas, aos fornecedores e os débitos com a União, para nós era o suficiente. Eu precisa dormir em paz e não ficar recebendo ligações de cobrança. As pessoas não entendiam que essa crise não era só nossa, mas estava potencializada sobre nós por causa do relacionamento com pessoas que puxaram nosso tapete. A mídia impressa vem sofrendo há mais de 10 anos e, paralelamente a isso, temos a crise interna nossa com os grupos poderosos daqui de Sergipe.

SS – Os governos – estadual e  municipais – ficaram devendo dinheiro de publicidade?

AB – Fizeram todas as coisas ruins para nos deixar de joelhos, mas agora estes débitos ficaram com o grupo que assumiu o Cinform.

Em 2013, o governador em exercício, Jackson Barreto, visita Bomfim na sede do Cinform
Foto: Márcio Dantas

SS – E o Bomfim, que no passado andava com os poderosos de Sergipe, como é hoje? Eles lhe viram o rosto?

AB – É, tem situações interessantes que hoje eu dou risada.  É como se eu estivesse morrido e ficasse de lá de cima assistindo ao que se passa com aqueles ‘amigos, companheiros’. Interessante: eu encontro pessoas em determinados lugares e elas mudam de faixa, de posição, viram o olhar e eu dou risada. Porque eles vão passar, talvez, por coisas piores que eu já passei. Mas eu tenho a paz espiritual, tenho Deus comigo. Eu sou de Jesus e Jesus é meu. Eu superei tudo isso. Tiro de letra.

SS – Hoje, o senhor está tranquilo?

AB – Estou tranquilo, deito e durmo bem.

SS – Do que o senhor sente saudade daquele tempo da riqueza?

AB – Saudade eu sinto é de um bom uísque, um bom vinho, um bom restaurante, de viajar. Dessas coisas sinto saudade. Hoje viajo uma vez por ano para São Paulo, vou ver meus netos e curto um pouco daquela cidade.

SS – E antes, quantas vezes o senhor viajava?

AB – Três a quatro vezes por ano.

SS –  Pelo Brasil  e exterior?

AB – Sempre Brasil. Mas fui a Buenos Aires assistir ao Fluminense e Boca Juniores.  Mas meu projeto era conhecer o Brasil. Em 2012, me convenceram a ir a Buenos Aires e foi a primeira vez que saí do Brasil, mas não tinha pretensões de outras viagens ao exterior.

O então deputado Belivaldo Chagas rendendo homenagens a Bomfim, em 2006

SS – Teve uma época no Cinform que toda a família trabalhava na empresa. E como estão seus familiares hoje?

AB – Não me lembro em que ano foi, mas eu disse que no Cinform só ficariam os filhos. Genros e noras deveriam ir para casa estudar para concurso, para arrumar emprego decente. Porque, de repente, parece que eu estava adivinhando, alguém puxa o nosso tapete e vai ficar todo mundo chupando dedo. A Flávia Martins Bomfim, jornalista, era editora do caderno de cultura do Cinform, entendeu a mensagem e foi fazer Direito. Mariana já era formada em Marketing e foi fazer Direito. Marcelo, meu genro, não se formou, bem como minha filha também. Hoje estão trabalhando. Deus nos tem ajudado e não passamos necessidades.

SS – Houve uma época em que um dos seus filhos teria comprado um carro caríssimo, enquanto a empresa estava com débitos, isso provocou a ira dos jornalistas.  O que aconteceu?

AB – Ali foi o seguinte: meu filho e a esposa compraram terreno em um condomínio e levantaram uma casa, começaram a morar e vieram as dificuldades da distância, pois o imóvel era no Robalo. Aí encontraram a proposta de trocar por um apartamento na Atalaia e fizeram o negócio.  E entrou nesse acerto um carro velho, da marca Volvo, em torno de R$ 100 mil que eles só conseguiram vender por R$ 60 mil,  recebendo 10 cheques de R$ 10 mil, e comeu o pão que o diabo amassou. Nenhum filho meu teve o luxo de ter um carro importado.  Quem teve um carro melhor fui eu.

Atual sede do Cinform, na rua Porto da Folha Foto: Fan FM

SS –Se o senhor tivesse que começar o Cinform novamente, o que faria de diferente?

AB – Faria tudo igual, mas pensaria em diversificar. Eu dei muito para as pessoas e não fiquei com nada para mim. Eu tinha o privilégio da informação em primeira mão e nunca usei disso. Teve uma época que eu tinha problemas com alguns funcionários, com a condição de suspender ou demitir, porque eles vendiam páginas do caderno de veículos para as pessoas terem informação privilegiada nos classificados de compra e venda. Eu não usava para mim, mas alguns dos meus funcionários usavam.  Eu cheguei a diversificar, mas terminava no mesmo lugar: o instituto de pesquisa, era comunicação; o balcão de anúncios, recepcionava os classificados. Por último, abri o Cinform online, para atender a nova demanda e aí quando a coisa pegou, pegou tudo. Ah, se eu tivesse um barzinho ali na esquina, ou um terreno! Agora estava vendendo. O que eu tinha era para uso e tive que vender tudo, entregar tudo.

SS – Qual foi o melhor momento do Cinform e qual o pior?

AB – O pior foi na rua Laranjeiras, quando comecei a receber um tratamento violento. Algum grupo deu um tiro de escopeta na casa de minha mãe, no Siqueira Campos. Ali foi o pior, porque vivíamos num clima de terror, com os filhos pequenos. O Shopping Riomar tinha inaugurado naquela época e eu nem podia ir lá levar as crianças, com frequência. Eu ia uma vez por mês e com segurança. Recebi pressão dos irmãos, por causa disso. Eu não poderia abaixar a cabeça, recuar, porque senão iam trucidar a gente. Mantive-me de pé para administrar essa situação de medo, que todos nós tínhamos. A gente almoçava e jantava com segurança do lado. O clima de terror que não desejo para ninguém. Mas superamos…

SS – E os bons?

AB – Os outros momentos foram bons.  Quando atingimos 20 anúncios de classificados de veículos, comemoramos, foi uma festa.   E também quando chegamos a 5.600 anúncios classificados e fomos o segundo maior jornal de classificados do Nordeste, só perdemos para um do Rio Grande do Norte.  E uma vez, uma senhora de uma agência, veio nos criticar porque tínhamos muitos anúncios e eu disse a ela que a culpa não era nossa. Chegavam os anúncios e eu aumentava o número de páginas, mas as informações continuavam.

SS- E o senhor como gestor de uma empresa jornalística, o jornalismo deixou saudade ou deixou mágoa?

AB – Eu tenho um sentimento de quando era criança, ouvia rádio e ficava indignado, assistindo ao jogo e o cara contando diferente do que eu estava vendo. E eu dizia que se um dia tivesse um veículo de comunicação faria o certo. Passei 36 anos tentando fazer, se fiz bem ou mal, que julguem. Saí do ramo e continuo vendo as mesmas patifarias, palhaçadas. E até pior.

SS – No início da nossa conversa, o senhor falou dos perseguidores e prefere silenciar quanto aos nomes deles. Mas onde o empresário Antônio Bomfim errou e deixou de fazer para que o Cinform não fosse à bancarrota e o senhor junto?

AB – A quebradeira não foi nossa, foi mundial. Foi a tecnologia que trouxe dificuldade para mídia impressa. E paralelo a isso, aqui no Brasil tivemos crise de veículos, no mercado imobiliário.  Estes dois anunciavam com a gente: as concessionárias, os revendedores, todas as construtoras e imobiliárias. Era uma delícia dirigir o Cinform naquela época e nem a Globo ganhava para a gente. Aliás, a Globo ganhava em termos de faturamento, mas de importância, não.  Uma empresa ia lançar um empreendimento, procurava o Cinform. E aí entraram em crise e foi enfraquecendo. E, ainda, as perseguições políticas. Em 2007, um auditor fiscal do INSS ocupou uma sala no Cinform, durante seis a sete meses, e servíamos cafezinho e suco para ele. E a gente imaginava que ele estava orientando mas, na verdade, ele foi acabando com a gente. E quando saiu de lá deixou um rombo de mais de R$ 3,8 milhões para pagarmos. Nós chegamos a empregar 184 pessoas no Cinform.

SS – E a Receita Federal também foi dura?

AB – Sim. Logo depois que saiu esse auditor do INSS, chegou a Receita, pediu documentos. E levamos. E lá se vão mais R$ 3 milhões para pagarmos. Chamamos os advogados, os contadores e eles declararam que aquelas contas eram impagáveis. Sobrevivemos de 2007 até 2016, por conta dos Refis. Ficou difícil pagar. Chegou ao ponto de não ter mais condições e tivemos que vender. Em 2013 ou 2014 colocamos à venda, discretamente, para não desvalorizar.

SS – O senhor comprou por uma fortuna uma máquina impressora da Índia. Na chegada teve que fechar a rua para tirá-la do caminhão.

AB – Foi sim. Tentei vender essa máquina e não consegui. Eu a entregaria por R$ 80 mil. Eu, então, saquei minha aposentadoria privada do Bradesco, na época R$ 76 mil. Eu iria me aposentar em 2005 com R$ 5 mil por mês, mas saquei para pagar uma folha do Cinform, porque não gostava de estar sendo cobrado. Fiz isso e hoje tenho uma aposentadoria de R$ 2,5 mil. E poderia estar com R$ 5 mil desde 2005, é duro. Mas faria de novo. Infelizmente, a coisa fugiu do controle, paciência.

SS – O senhor era casado com Edna Bomfim, ela ficou gravemente doente e morreu em 2012.

AB – Gastei o que tinha e o que não tinha no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde ela ficou internada. E o plano de saúde negou meus direitos e um desembargador sergipano, que se dizia meu amigo, entendeu que o direito era da seguradora Bradesco.

SS- O senhor que passou por tantos problemas financeiros, lhe pergunto: quem lhe sobrou de amigo? Porque quando se perde a majestade, esses ‘amigos’ somem.

AB – Talvez isso seja o mais doloroso, sabe. Apesar de dar risadas, às vezes.  Mas há casos que você fica deprimido, você sente.

SS – Qual foi o que mais lhe deprimiu?

AB – Ahhh (suspirou fundo), prefiro não dizer.

SS – Então, sigamos para outra pergunta (nesse momento, ele interrompe e diz):

AB – Eu tive um irmão que me colocou na Justiça do Trabalho. E foi o que eu mais ajudei, ao ponto de ele me chamar de “mamãe Toinho”, quando era pequeno.  Qualquer um que me botasse na Justiça, é um direito. Mas, meu irmão… Ele teve apenas um emprego de vigilante, não me lembro onde, e fora isso, só eu o empreguei, que deve estar com 54 anos.

SS- Quais são seus planos para o futuro?

AB – Infelizmente fiz vasectomia, não posso mais ter filhos e é caro para mim, hoje, fazer a reversão. O sonho de toda mulher é ser mãe e minha atual esposa, Maria Alexsandra Conceição Santos, também é. Já adotamos uma gata e no futuro, quem sabe, adotaremos uma criancinha.

SS – Há quanto tempo vocês estão juntos?

AB – Desde 2014. Nós juntamos os contracheques (risos). Ela me conheceu na riqueza e está comigo na pobreza.

SS – Alguma coisa mais que gostaria de dizer?

AB – Agradecer a Deus pelas bênçãos que recebi e que ainda vou receber. Cheguei aonde cheguei sem subir nas costas de ninguém. Perdi tudo que juntei, mas tenho os meus 10 dedos das mãos, saúde, força de trabalho e paz no coração. Mais do que isso, é luxo.

Por Antônio Carlos Garcia / Portal SOS SERGIPE

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