08h59Ana Alves: “Existem pessoas que estão sofrendo por ela”

*ANTONIA AMOROSA

Amorosa: “Não sei caminhar com a boiada”

Eu tenho um defeito. Não sei caminhar com a boiada. Sou como uma loba solitária. Subo até as montanhas e observo o agir de todos os animais. E vejo o quanto ainda somos da barbárie, do quanto nos parecemos com aquele povo que apedrejava a adúltera enquanto Jesus escrevia na areia. Há momentos que eu preferia ser um pássaro, uma loba, uma coruja, um cavalo, para não ser humana e não detectar a crueldade dos homens, predadores dos homens.

Assim como houve a cultura das fogueiras, estamos vivendo a cultura das prisões. E quando alguém é colocado entre as grades, as pessoas se revelam, mostram suas verdadeiras cores, seus níveis de crueldade, sua ausência de compaixão, sua capacidade de julgar sem aguardar o trabalho técnico das autoridades, a quem devemos respeito.

Me recordo de uma palavra que ouvi do pai de Ana Alves, quando ela estava muito doente, há alguns anos atrás. Ele me confidenciava que amava todos os filhos por igual, mas que Ana era a menina dos seus olhos, porque inspirava um cuidado maior. Isso ficou guardado na minha memória. Então, quando Ana excedia no seu jeito espontâneo, quando tentava resolver os problemas de todo mundo, mesmo não sendo chamada para aquilo, quando dizia algo que poderia não ser o ideal, eu lembrava das palavras sábias do seu pai, do seu infinito amor por esta filha.

Quando vejo tanta gente condenando gente como se fosse juiz, sinto uma profunda compaixão destas pessoas porque elas não imaginam o que estão fazendo e da gravidade espiritual dos seus atos. Porque os pecados que cometemos na terra, temos chances de pagar aqui. Mas, os pecados que cometemos contra a lei do julgamento eterno, não! Tem muita gente fazendo papel de deus, quando não é da nossa competência fazê-lo. Só covardes atiram com acidez em quem já está ferido! A competência da justiça é cuidar do bem comum e da ordem. A nossa, é orar pelos que sofrem, pelos que erram, pelos que precisam se reerguer. Porque nesta vida, quem consegue se identificar como alguém que não erra com ninguém, nem consigo mesmo, nem com os seus, nem com ninguém?! Nenhum de nós, meus amigos! Se houver aqui alguém sem pecado, por favor, se identifique porque eu quero conhecer a pessoa que Jesus não conheceu.

Sei que Ana passou por momentos muito difíceis na sua vida. Tanto na saúde, quanto pessoal. Como uma fênix, essa menina se achegou aos seus pais, passou a cuidar deles de uma forma mais presente, e pude perceber um tempo de amadurecimento. Não estou aqui isentando-a de possíveis erros cometidos, talvez não sabendo da sua gravidade. Quem a conhece, sabe que ela é de falar o que pensa, não mede palavras, é como uma criança no corpo de uma mulher. Mas, quem a conhece também sabe do quanto ela é prestativa, amiga, parceira das pessoas que ela nomeia como sendo seus amigos. Eu não estou entre estes amigos que andam ao seu lado, mas reconheço que ela é de prestigiar as pessoas que ela nomeia como tal. Se isto é um pecado grave, Ana pecou. Mas, nenhum de nós recebemos de Deus qualquer autoridade para perdoar pecados. De julgar, também não.

Repito e insisto que não estou aqui eliminando ou desqualificando o importante papel da justiça numa decisão preventiva. Não. Só estou dizendo que não seguirei a boiada, porque sou mãe, tenho filhos, tenho amigos, conheço os pais de Ana há muitos anos, em um tempo suficiente para respeitá-los por todos os acertos, lamentar pelos erros mas, não deixar de respeitar aos dois por terem dedicado suas vidas ao serviço público de Sergipe. Se há pessoas que os condenam, há outros que os reconhecem, E isso também deve ser respeitado.

A imprensa sergipana precisa urgentemente de profissionais que consigam ser mais profundos. Falam da gestão nefasta de João Alves, dos erros cometidos e, se houve, a responsabilidade estará muito mais nas mãos de quem deveria ajudá-lo, do que nas mãos deste homem que já estava doente desde o segundo ano do seu governo, onde poucos, muito poucos, sabiam. Lembro de um dia em que ele estava dando uma coletiva e me chamou. Ao me abraçar por uns cinco minutos enquanto respondia perguntas a um repórter, ele permanecia normal, até chegar a uma pergunta sobre seu ex-genro e sua filha. Por estar abraçada a ele, senti suas carnes tremerem, como se tivesse acionado o seu sistema nervoso. Ali mesmo, comecei a orar e pedir a Deus que o ajudasse. Eu não sou ninguém para julgar ninguém. Eu estou na terra submetida à decisão do Pai! Somente Ele sabe quem é quem! Disso, ninguém duvide. Não vi ali o prefeito, o ex governador, o ex ministro. Senti nas mãos o tremor nas carnes de um pai por saber que a menina dos seus olhos estava sofrendo por algo que ele não tinha como resolver. Quem é pai ou mãe, sabe o que isto significa.

Sei que, como faz a maioria, eu deveria ficar na turma dos calados, moradores da moita, como fazem os covardes, os medrosos, os que vivem nos muros, os que não respeitam nem são gratos a ninguém. Não sou refém da família Alves e jamais serei, nem deles, nem de ninguém. Mas, respeito a família Alves como sendo líderes da vida pública de Sergipe, que cometeu grandes acertos e, como todos que se arriscam na vida pública, erros também, porém, o julgamento final não é meu, mas de Deus, mesmo que os homens julguem até matá-los vivos ( sim! Há mortes que são praticadas, enquanto as pessoas permanecem vivas…). As obras de cada homem serão prestadas a Deus e não compete a nós, gerar condenação a quem merece um mínimo de respeito e dignidade.

Hoje, neste dia 03 de dezembro, a menina dos olhos de João está dentro de grades criadas pelos homens, como forma de punição, tolhendo-lhe a liberdade. Mas, os que viveram para Cristo também foram presos, condenados pelos homens. A cultura das prisões vai continuar. Que ninguém pense que vai parar porque não vai. Embora outros merecessem mais do que uma pessoa que pecou por falar demais, ou servir demais, ou confundir o serviço púbico com a esfera familiar, enfim. Tais erros são cometidos todos os dias por muita gente, mas ninguém quer ver!

Não compete a mim julgar Ana. Quando olho para esta moça, só vejo uma menina que requer cuidados sérios com sua saúde, que não é brincadeira! Quem conhece de perto, sabe que digo a verdade. Temo pela saúde dela e um possível agravamento. Peço a Deus que lhe dê serenidade e força neste momento difícil. Quanto a nós, que temos uma metralhadora nas mãos, em forma de notebook, celular, enfim, podendo mandar quantas balas quisermos nas redes sociais, porque não tem ninguém por perto para um enfrentamento de corpo ou violência mais séria, lembremos que o escrito diz muito sobre cada um de nós, mais do que sobre os outros. Não sabemos do dia de amanhã. Deixemos que a justiça cuide daquilo que lhe compete. Evitemos fazer papel de juiz, sem competência para isto. Não podemos destruir as pessoas, como se elas não fossem nada. Cada ser humano sobre a terra tem seu valor! Até o aprisionado, o condenado, o julgado ou sob investigação. Lembrem sempre que atrás de uma pessoa existe um pai, uma mãe, um irmão, um amigo. Existem pessoas que estão sofrendo por ela! E se você tem Deus no seu coração, mas não tem compaixão pelo seu irmão, você conhece tudo…menos Deus. Mesmo que se auto defina como sendo cristão.

Antes de escrever este texto, porque minha alma não sabe ficar em silêncio quando precisa dizer ( Deus não me deu um dom para que eu enterre!), abri a bíblia pedindo a Deus que me dissesse algo que fosse destinado a Ana. Reproduzo onde a bíblia, por si só, revela a cada espírito que ouve o que O espírito diz às igrejas que é o coração de cada homem.

“Como o servo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, porquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus? Quanto me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma: Pois eu havia ido com a multidão; fui com eles à Casa de Deus, com voz de alegria e louvor, com a multidão que festejava. Por que estás abatida, ó minha alma, e por quê te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua Presença. Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida; portanto lembro-me de ti deste a terra do Jordão, e desde os hermonitas, desde o pequeno monte. Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas: todas as tuas ondas e vagas tem passado sobre mim. Contudo O Senhor mandará de dia a sua misericórdia, e de noite, a sua canção estará comigo: a oração ao Deus da minha vida. Direi a Deus, a minha rocha: por quê te esqueceste de mim: Por quê ando de nojo por causa da opressão do inimigo? Como com ferida mortal em meus ossos me afrontam os meus adversários, quando todo dia me dizem: Onde está o teu Deus? Por quê estás abatida, ó minha alma, por quê te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus. ”

*É cantora, radialista, jornalista e atriz

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