Aracaju ganha destaque nacional com tratamento alternativo ofertado em unidades de saúde

Depois de uma cirurgia de hérnia de disco, em 1996, dona Eulina Maria da Silva, mais conhecida como “Ió”, foi diagnosticada com hepatite medicamentosa e pedra na vesícula. Sem querer passar por outro procedimento cirúrgico, dona Ió procurou a cura através das plantas medicinais e, interessada em saber mais, encontrou na Unidade de Saúde da Família (USF) Manoel de Souza Pereira, no conjunto Sol Nascente, em Aracaju, um dos alicerces para cuidar de algumas enfermidades. Hoje, além de se tratar, ela cuida de amigos e desconhecidos que a procuram pela fama de “curandeira”.

“Trabalhei como auxiliar de enfermagem durante muito tempo e talvez isso tenha contribuído para que eu me interessasse em saber mais sobre o poder de cura das plantas, até porque eu mesma sou prova viva de que elas funcionam. Na época em que fiz a cirurgia e apareceram os outros problemas, me tratei durante três meses com chás de algumas plantas e ervas e fiquei boa”, garantiu ela.

Na USF, ela conheceu Irene Alves de Deus, uma enfermeira que já trabalha na rede municipal de saúde há cerca de 30 anos. Curiosa e interessada na área de fitoterapia, Irene foi uma das responsáveis pela implantação do uso das ervas medicinais na unidade de saúde que, inclusive, ministra cursos na área, cursos esses que dona “Ió” fez questão de participar para aprimorar o seu conhecimento.

Foi também em 1996 – ano em que dona Ió embarcou no mundo das ervas medicinais – que Irene realizou a primeira oficina na Unidade de Saúde do Sol Nascente. Segundo ela, no começo, outras profissionais da equipe tinham certo preconceito com o uso das plantas medicinais, mas, aos poucos, foram se interessando. Atualmente, médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos e agentes comunitários já estão engajados no projeto que a enfermeira afirma ter bons resultados.

O trabalho que começou com a dedicação de Irene, inclusive, ganhou destaque nacional. Em uma reportagem exibida na última sexta-feira, 23, no programa de estreia da nova temporada do “Globo Repórter “, os diversos tratamentos alternativos ofertados na Unidade de Saúde da Família (USF) Manoel de Souza Pereira com flores, ervas e plantas medicinais, foram evidenciados.

 

Projeto piloto

A Manoel Souza Pereira, construída na primeira gestão do prefeito Edvaldo Nogueira, foi a USF que abrigou o projeto piloto, em Aracaju, para desenvolver o tratamento através da fitoterapia, que nada mais é do que o uso de plantas medicinais na cura de doenças. A realização do projeto se deu com a aprovação, por meio do Ministério da Saúde, da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos no Sistema Único de Saúde.

“Iniciamos com um levantamento epidemiológico e da nossa biodiversidade. Em seguida, procuramos capacitar a equipe e construímos o herbanário. A partir disso, procuramos mobilizar os usuários que abraçaram o método de tratamento e alguns, inclusive, começaram  a aprender como utilizar as plantas em casa”, contou Irene.

Dona Ió, por exemplo, cultiva, na varanda de casa, algumas ervas e flores, como a tipí, chamada também de guiné, e boa noite. Com o que aprendeu na unidade de saúde e através de livros como “As Plantas Curam”, Ió começou a cuidar de outras pessoas e já perdeu de vista a quantidade de gente que recorreu a ela, seja para curar um leve resfriado ou até mesmo para tratar dores mais intensas.

“Eu faço de tudo, lambedor, pomada, chás. Volta e meia alguém aparece na minha porta se queixando de alguma coisa e me pedindo ajuda. Todos que voltaram me disseram que ficaram curados com as plantas. Ajudar as pessoas me dá muita satisfação. Me deixa feliz”, afirmou.

 

Tratamento 

Irene é categórica ao frisar que o tratamento fitoterápico é um aliado dos tratamentos médicos tradicionais. “Quando o paciente chega à unidade, explicamos que fitoterapia é um tratamento complementar, ou seja, mesmo fazendo uso das plantas, o paciente não deve deixar de tomar os remédios receitados pelos médicos. Além disso, é preciso ter orientação para lidar com as ervas, então, nós damos essa orientação na unidade para que o paciente não faça uso de forma incorreta”, explicou a enfermeira.

Através da fitoterapia aplicada na USF, podem ser tratados problemas de pele, infecções respiratórias, hipertensão, diabetes, desnutrição, anemia, stress, insônia, dores articulares e musculares. Para dar conta dessas demandas, o herbanário da Manoel de Souza conta com plantas como cana do brejo, sambacaitá, penicilina, mertiolate, cidreira, capim santo, aroeira, noni, mastruz e boa noite. Ao todo são cerca de 20 tipos de ervas e plantas medicinais.

 

Parceria 

Para a implementação do projeto na unidade, a equipe contou com a parceria do curso de Farmácia da Universidade Federal de Sergipe (USF). “Não podemos usar química no manuseio das plantas e ervas sem a presença de um farmacêutico, então, unimos o projeto do curso de Farmácia com o nosso e hoje ampliamos a nossa oferta de tratamento fitoterápico”, destacou Irena.

Na área de Farmácia é a professora do curso na USF, Francislene Silva, quem coordena o grupo de alunos que, toda semana, marca presença na USF do Sol Nascente. “Nossa parceria é proveitosa para os dois lados e atende à portaria do Ministério da Saúde. Nós, do curso de Farmácia, auxiliamos na estruturação e tentamos melhorar o que já existe. Percebemos que a comunicação com os pacientes melhorou, porque antes havia muita descrença com o uso das plantas no tratamento de doenças. Apesar de ainda encontrarmos resistência em algumas pessoas, vemos, também, que muitas outras aderiram”, enfatizou a professora.

De acordo com Francislene, essa parceria é proveitosa, ainda, para a oferta de medicamentos. “A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) lista 12 medicamentos fitoterápicos, mas, para ter acesso a eles, é preciso que as unidades de saúde se adéquem às exigências do Ministério da Saúde, por isso, essa parceria vem, inclusive, para auxiliar nesse ajustamento e, consequentemente, angariar medicamentos para os usuários”, detalhou.

Outras unidades de saúde da capital aderiram à fitoterapia, por meio da parceria. Além da Manoel de Souza, a USF Augusto Franco, localizada no conjunto Augusto Franco, e USF Eunice Barbosa, no bairro Coqueiral passaram a ter herbanário.

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